Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho

seg, set 27, 2010, 17.819 views

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por Breno Bidart

Definição: Transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho são aqueles resultantes de situações do processo de trabalho, provenientes de fatores pontuais como exposição á determinados agentes tóxicos, até a completa articulação de fatores relativos á organização do trabalho, como a divisão e parcelamento das tarefas, as políticas de gerenciamento das pessoas, assédio moral no trabalho e a estrutura hierárquica organizacional. Transtornos mentais e do comportamento, para uso deste instrumento, serão considerados os estados de estresses pós-traumáticos decorrentes do trabalho (CID F 43.1).Fonte: SINAN- Min. Saúde – Sistema Nacional de Agravos de Notificação.

Os transtornos mentais relacionados ao trabalho são reconhecidos pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério da Previdência Social. Com isso, o trabalhador, tem direito ao benefício acidentário. É NA, VERDADE, UM ACIDENTE DO TRABALHO.

Há aproximadamente 20 anos, eu ficava observando o pessoal que embarcava comigo e me sentia num manicômio. Criticava o comportamento da maioria de meus colegas e comentava: Fulano de tal é maluco, já viu sicrano? Tem um parafuso a mais. Ou seja o que eu mais via era gente desequilibrada a bordo, principalmente os mais antigos, precisando de ajuda médica. Criticava os comandantes, chefe de máquinas e os imediatos devido a suas atitudes. Com certeza o seu comportamento fugia da normalidade. Conclusão, os anos se passaram aí começaram a criticar o meu comportamento. Muitas vezes vi me chamarem de maluco. Com o passar dos anos me viam assim: O Breno… Aquele cara é doido, falavam assim até para a minha esposa.

Isso tudo tem a ver com a Fadiga psicológica e mental (termo mais comum, em todo o mundo marítimo ,estudado e confirmado pela IMO) que, em parte, na verdade são os TRANSTORNOS MENTAIS RELACIONADO AO TRABALHO ( QUE INCLUI O SOFRIMENTO PSIQUICO – ver: Dissertação de mestrado: “Trabalho e sofrimento psíquico na marinha mercante: Um estudo sobre a tripulação embarcada” da pesquisadora Janaina Aparecida dos Santos-http://teses.icict.fiocruz.br/pdf/santosjam.pdf) Que é uma doença ocupacional ou do trabalho reconhecida pelo INSS.

O que mais vemos a bordo, principalmente em navios petroleiros, as pessoas se desentendendo e praticando atos pouco comuns em pessoas sadias. Tem um amigo meu, cozinheiro, daqui de Vitória ES, que se recusou a reembarcar em navios DP na bacia de Campos. Não agüentou a politicagem daqueles navios. Não aceitou a maneira como era tratado. Essa recusa de embarcar resultou na sua demissão. Hoje já se passaram mais de um ano e não conseguiu outra colocação.Se fosse avaliado por um profissional da área de saúde, com certeza teria as condições citada acima. Afastar-se-ia para um tratamento e voltaria ao seu trabalho. Até mesmo para o próprio navio de onde sentia uma aversão inexplicável. Mas o transtorno mental relacionado ao trabalho é de total desconhecimento do aquaviário. Tem outro amigo, também daqui de Vitória ES, marinheiro de máquinas, que chegou a se aposentar, devido ao estado crítico que chegou. Quando desembarcou como único marinheiro de máquinas do navio, colocaram mais dois no seu lugar. Existem centenas de casos.

Certa vez em 1988 , em um barzinho no centro de Belo Horizonte MG, estive com um médico psiquiatra. Comentei que trabalhava embarcado no quadro da Petrobras/Fronape. Conversa vai, conversa vem e fui descobri que era psiquiatra e atendia pela AMS da Petrobras. Este me disse que tinha muitos pacientes que sofriam de um mal por estarem embarcados em plataformas. Na época achei muito estranho pois nós aquaviário ficávamos muitos meses embarcados e eles apenas quinze dias. Achei estranho porque só o pessoal de plataforma sofria desse mal? Na verdade, o meio marítimo tem total desconhecimento dos TRANSTORNOS MENTAIS RELACIONADOS AO TRABALHO. Que na verdade é uma doença ocupacional ou do trabalho.

Bom, aí podemos ver a diferença cultural de alguém que tem maior contato com a cultura de terra. Muito diferente do pessoal de bordo eles, se tratavam e continuavam trabalhando na empresa. Já, na Fronape, todos os dias, dois ou três pediam demissão ou eram demitidos. Outro dia vendo TV a novela das oito, no final alguém dá um depoimento (viver a vida). Num dos depoimentos uma mãe fala de um filho que trabalhava embarcado em plataforma sentiu uma depressão muito grande e que chegou ao suicídio.

Não foi a toa que o pessoal do quadro da Petrobras chegou aos 14 X21. No caso das firmas contratadas quando o funcionário começa a dar problemas com relação a essa fadiga, que gera o transtorno mental relacionado ao trabalho, depois de alguns anos trabalhando. Ou melhor, começa a apresentar os sintomas, eles são simplesmente demitidos e vêm outros para o seu lugar. O que não pode acontecer na estatal.

Diferente dos marítimos, naquela época, nas plataformas, já se tinha ocorrido um “boom” das doenças ocupacionais ou do trabalho relativo à fadiga (física e mental) do pessoal embarcado.Mesmo não sendo essas tratadas como tal. Mas Petrobrás é Petrobras o funcionário não chega simplesmente e pede para sair do emprego ou é demitido, como ocorre com as empreiteiras do offshore e a bordo de navios. Basta olhar a sua volta, no bairro onde você mora vai conhecer alguém que trabalhava embarcado em plataformas da Petrobrás e foi readaptado para uma função em terra, devido a distúrbios diversos ou, está em tratamento.O problema todo é cultural ou melhor, de acesso a cultura. Como um dos termômetros do estado de saúde é a família do empregado e o tempo embarcado é mais curto para os que labutam em plataformas, os sintomas são logo detectado pela família, essa já orienta e cobra do funcionário uma atitude devido a sua mudança de comportamento.Pois esse sofrimento psíquico que sofre o empregado é logo detectado pela família.Como eu já disse tratando-se de um problema cultural, os funcionários de plataformas procuram logo ajuda médica. Já os embarcados em navios pouco podem fazer.

Concluindo, gostaria de frisar que desde a publicação do trabalho da pesquisadora Janaína Aparecida dos Santos em 1999 (Fundação Oswaldo Cruz). Se o nosso Sindicato tivesse, como tem o sindicato dos bancários, A DIRETORIA DE SAÚDE que, no caso do sindicato dos bancários, foi fundamental para gerenciar esses transtornos em sua categoria e facilitar a formação do nexo causal, bem como iniciar estudos para prevenção com profissionais habilitados. Nosso sindicato tendo a diretoria de saúde, com profissionais habilitados e capacitados que poderiam estudar a fundo, e divulgar, a fadiga física e psicologia da categoria. Com certeza, se fosse assim, eu não teria passado por tudo que passei e possivelmente já estaria trabalhando e com saúde. A falta de conhecimento e apoio médico faz com que cheguemos além do limite. Principalmente, por ninguém saber que o tipo de trabalho, em confinamento,com excesso de horas trabalhadas e gerencias despreparadas para o tratamento com subalterno entre muitas outras coisas, geram essa doença ocupacional ou do trabalho.

15 Respostas para “Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho”

  1. Breno Bidart:

    No mês passado, o suicídio do Imediato Carlos Bismarck, é um dos muitos exemplos de transtornos mentais relacionados ao trabalho que não foi tratado.Se suicidou quando embarcado.Já teve muitos casos como esse e normalmente ocorrem com Oficiais, de mais de 35 anos.
    Se no início fosse identificado, com certeza, esse nobre Oficial Mercante teria se tratado e continuado a sua carreira vivo e com saúde.
    No dia que isso começar a pesar no bolso das empresas e aliviar o do INSS, teremos maior cuidado, nas empresas, como tem a Petrobrás com os tripulantes das Platafomas da Petrobrás.
    HOJE SE RESOLVE COM O FUNCIONÁRIO PEDINDO DEMISSÃO OU SENDO DEMITIDO.
    Breno Bidart

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    • maria barbosa:

      Gostaria de saber se quando terminar o curso da marinha mercante oficial de maquinas poderei optar em seguir carreira no ciaga/ciaga como marinha de guerra e qual é o salário e o cargo que me será oferecido/

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    • Bárbara:

      Breno estou desconfiada que meu esposo também está passando por este tipo de problema. Só que ele se recusa a procurar ajuda médica. Ele teve um problema de apêndice fez uma cirurgia e teve que ficar um pouco mais em casa. Daí eu percebi o quanto ele ficou melhor em casa ,porém quando se aproximou a volta para o navio ele começou a ficar agressivo. Tudo gritava até mesmo se irritava com as crianças coisa que ele nunca fez. Ao ler sua matéria agora estou decidida que quando ele voltar vou levá- lo ao médico sim,pois tenho muito medo que ele tome uma atitude drástica como um suicídio por exemplo.

      Grande abraço.

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      • Breno Bidart:

        D. Barbara

        Leve-o ao médico o mais rápido possível. Se for tratado, no início, fica fácil. Estou no meu horário de almoço e acabei de ter a notícia de um colega que tentou suicídio devido a ansiedade e depressão.
        É muito difícil achar um bom psiquiatra que seja também psicoterapeuta. Depois de passar nas mãos de muitos médicos achei um especialista em doenças proveniente do trabalho.
        Outros colegaas meus perderam a família, por causa dessa doença,e se arrependem muito. Sem o apoio da família fica muito difícil.
        A melhor maneira de se tratar é se afastando totalmente do trabalho, infelizmente temos de ficar pelo INSS. No meu caso o meu salário caiu a 20% do que eu ganhava.Recebia o teto máximo do INSS, que para o meu padrão, era muito pouco. Não é mole ganhar 5X menos, mas nos acostumamos.
        Com geitinho a senhora pode convece-lo a procurar um bom psiquiatra e se tratar, antes que seja tarde.
        Boa sorte.
        Breno Bidart

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      • Breno Bidart:

        D. Barbara

        Em tempo
        É BOM LEMBRAR QUE QUANDO FICAMOS NESSA SITUAÇÃO, DE FADIGA, É MUITO COMUM O PROFISSIONAL FICAR QUERENDO SAIR DA EMPRESA ACHANDO QUE TUDO VAI SE RESOLVER. TOME CUIDADO, SAIA SIM, MAS DEPOIS DE UM TRATAMENTO. TENHO MUITOS AMIGOS QUE PEDIRAM DEMISSÃO E SAIRAM ACHANDO QUE IA MELHORAR E AS NECESSIDADES O FIZERAM PIORAR. POR ISSO É MUITO IMPORTANTE UM TRATAMENTO ANTES QUE A COISA EXPLODA A BORDO E, NESSA EXPLOSÃO, O SEU MARIDO PEÇA DEMISSÃO OU SEJA DEMITIDO.
        TENHO UM AMIGO, MEU VIZINHO, COZINHEIRO DA TRANSPETRO,daqui de vitória es,, QUE SE REUSOU A EMBARCAR EM UM NAVIO DP, NA BACIA DE CAMPOS, ESTAVA MUITO ESTRESSADO, E NÃO AGUENTAVA POLITICAGEM. EM FIM, FICOU MAIS DE UM ANO DESEMPREGADO, DEPRIMIDO E ANSIOSO ATÉ ARRANJAR UMA NOVA COLOCAÇÃO. NESSAS HORAS PRECISAMOS TOMAR MUITO CUIDADO.
        Breno Bidart
        Breno Bidart

        Responder

  2. JOÃO CARLOS DE SOUZA FIGUEIRA DE ORNELLAS:

    FAÇO A RESALVA QUE A BRASCREW QUANDO NELA TRABALHEI,MANDAVA O TRIPULANTE (DIAS ANTES DE EMBARCAR) PARA UMA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA,CHECANDO SE O MESMO ESTÁVA APTO AO TRABALHO E AS CONSEQUÊNCIA INERENTES AO MESMO.(STRESS,CONFINAMENTO,SOLIDÃO…. .).

    Responder

  3. Leonardo:

    Muito bom seu apontamento. Estou começando o curso de ASOM no CIAGA, e a vejo que as pessoas não tem muita ideia do que irão encontrar pela frente. Deve ser muito dificil para quem não está acostumado a ficar longe da familia, etc.

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  4. Breno Bidart:

    Leonaedo
    Não é tão difícil se você optar por uma empresa como a Aliança e a Brascrew, citada acima élo nosso amigo ORNELLAS.
    Breno Bidart

    Responder

  5. JULIANO:

    Olá! gostaria de compartilhar o assunto dizendo que ao ler a menção acima, me identifiquei com os sintomas deste “TRASTORNO”, porem minha função é a de “vigilante patrimonial” trabalho armado e em locais de grande circulação publica e muitas vezes acho que vou “PIRAR” e “perder o controle”… ACHO QUE ESTE TIPO DE TRANSTORNO MENTAL NÃO É EXCLUSIVIDADE SOMENTE DOS trabalhadores das grandes plataformas marítimas… BEM! ACHO MELHOR EU PROCURAR AJUDA… OBRIGADO.

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  6. maria Do socorro de s. medeiros:

    Muito boa a pesquisa, presimos mesmo trabalhar na prevenção da doença mental.

    Responder

  7. maria Do socorro de s. medeiros:

    Os transtornos mentais estão presentes em todos os serviço que não tem organização.

    Responder

  8. maria barbosa:

    O que voces acham da empresa NOSKAN?
    É uma boa empresa para trabalhar embarcado?
    Valoriza o empregado ou explora?
    Qual a escala de trabalho para oficial de máquinas e o salário.

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  9. BATISTA:

    Sou Policial Militar e venho passando por diversos problemas emocionais devido ao assedio moral de meus superiores,venho a tempo percebendo mudanças em meu comportamento que começou quando passaram a me escalar para trabalhar solitario durante periodo noturno,tal comportamento que me refiro sao relecionados a fadigas,dores no peito,fortes palpitaçoes,nervosismo e anciedade incontrolavel,esclareço que nao procurava ajuda devido a vergonha de ser diaguinosticado como louco tendo em vista que amigos que tambem ja havim percebido alguns transtonos mentais e ficos onde passaram a me tratar como codigo 13 (codigo referente a psiquiatria)e ainda queno meu ultimo dia de trabalho tive que ser conduzido ao Hospital e o Medico Psiquiatra me encaminhou com urgencia imediatamente para tratamento mental receitando tarjas preta e estou em tratamento,fica aqui meu Elogio ao Breno Bidart ea pesquisadora Janaina Aparecida dos Santos.

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    • Breno Bidart:

      Batista
      Tenho um irmão que é Policial Militar em Minas Gerais. Se ele não tivesse conseguido uma transferência teria ido pelo mesmo caminho. Temos sorte quando diagnosticado a tempo e podemos voltar ao trabalho, depois e um longo tratamento.. O assédio moral ajuda muito a piorar as coisas. Também passei pelo assédio moral além da péssima administração do trabalho, a que ficamos subordinados. Hoje em dia temos muita gente despreparada ,em cargos de liderança, por terem conhecimento ou por estudarem um pouco mais que outros
      Tenho um colega que seu caso se complicou por demorar demais a buscar uma ajuda médica. Basta ler os comentários nesse blog do artigo: ACOM, sonhos que se realizam.Veja os últimos comentários. Esse colega, de profissão, consegue citar com detalhes os sintomas.Muito parecido com o meu caso.NO CASO DELE , NÃO CONSEGUIU VOLTAR A FAZER O QUE MAIS AMAVA, QUE ERA TRABALHAR.
      Eu fiquei 5 anos afastados do trabalho e agora voltei em uma função burocrática e não pretendo parar mais de trabalhar.Com certeza tem cura, principalmente quando nos afastamos da fonte causadora que é o “ambiente de trabalho”. Eu considero importante ser acompanhado por um médico psiquiatra que seja psicoterapeuta. Tenho que admitir que só passei por médicos ruins e me encontrei com uma autoridade na área de doenças relacionadas ao trabalho que foi o Dr Luiz Henrique Borges , aqui em Vitóris ES, só assim tive esperanças de cura. Procure um médico de verdade e com certeza, voltará ao trabalho. Esse tipo de transtorno acontece normalmente, com quem gosta do que faz e veste a camisa( farda) da empresa.
      Abraço
      Breno Bidart

      Responder


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