Torrey Canyon – O primeiro de muitos

sex, ago 12, 2011, 3.285 views

Convés, Fotos, Lá Fora, Navegação, Segurança, Tecnologia  

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por Erik Azevedo

“ASHORE ON SEVEN STONES, REQUIRE IMMEDIATE ASSISTANCE”.


O Rebocador holandês Utrecht

Esta foi a mensagem, recebida no sábado, dia 18 de março, de 1967, anunciava o drama em torno do navio de 120.000 dwt registrado na Libéria, o  petroleiro “Torrey Canyon”. Logo depois, a mensagem “PROSSIGA AGORA” estalou através do éter, o que partiu do nosso  rebocador de salvamento “Utrecht”, que já levantou ferro de sua base em Mounts Bay e foi em encontro para a posição aonde estava o navio tanque. Esta operação de salvamento que, se não a mais difícil, foi certamente a mais perigosa das 600 realizados pela empresa desde sua fundação.
Algumas horas após isso o navio encalha, e instruídos pelos agentes nossa Empresa inicia a realizar o resgate, com base na abertura de um contrato com o Lloyd - não há jeito, sem remuneração, sem dinheiro, sem resgate. A ação do Capitão do Torrey Canyon em inicialmente se recusar a assinar o contrato resultou em um tempo precioso perdido.

Foi exatamente assim como narrado por um tripulante de um dos rebocadores que tentaram salvar o Torrey Canyon, este acidente iria entrar para a história, como o primeiro grande derramamento de óleo de muitos que iriam se seguir. Na época este era um dos maiores navios com 120.000 toneladas.

O navio pirata

Construído em 1959, originalmente com 63.000 toneladas, era um “supertanque” como qualquer outro, porem ele sofreu alterações no seu casco um pouco antes da sua viajem “final”.  Antes de carregar em Mina Al-Ahmad, no Kuwait no dia 19 de Fevereiro, o navio estava no Japão sendo “jumborizado” e engordou um pouco mais, ou melhor quase o dobro do porte, passando para as 120.000 toneladas.

O Torrey Canyon antes de ser “Jumborizado”, foto de 1959, quando ele tinha 63.000 tons

O plano de viajem era após deixar as Ilhas Canárias no dia 14 de Março, chegar na noite de 18 de março em Milford Haven, numa maré alta, e por isso seu Capitão o italiano Pastrengo Rugiati, resolve cometer a imprudência de se arriscar num “atalho” entre recifes e baixios com um navio com carga máxima, e recentemente adaptado. Quando ele desliga o piloto automático, e manobra lentamente seu navio entre as Ilhas Sicilly, e Cornish (terra firme), num lugar chamado de Seven Reef Stones, ele atinge as submersas Pollard’s Rock, isto graças à um erro de plotagem, devido a derivação do navio devido à corrente, e mais alguns fatores dignos de uma comédia pastelão.

O navio-tanque S/T Torrey Canyon, pertencia à Barracuda Tanker – um armador independente (pirata), uma empresa fictícia era registrada na Libéria, porem com capital Greco-americano, estava afretado por 20 anos para a Union Oil da California (empresa de petróleo antiga), ele tinha que estar pronto para entregar seus cargamentos para qualquer parte do mundo, e assim só tinha uma pequena quantidade de cartas; o Torrey Canyon somente usava o sistema LORAN, menos preciso do que o Decca Navigator (os pais do GPS atual).


Tentativas de conectar um cabo de reboque

Diz a lenda que enquanto navegavam entre os recifes houve risco de colisão com um pesqueiro. Aconteceu algum desentendimento entre o Comandante e quem estava no timão (que na verdade era o cozinheiro e tinha pouca experiência) para saber se era melhor estar no modo manual ou no piloto automático; no momento em que isto foi resolvido,  já era tarde demais.

O S/T Torrey Canyon, encontrou seu destino final nos rochedos, pois todos os esforços humanamente possíveis para tentar salvar o navio foram feitos. Uma equipe de especialistas em salvamento de navios foi enviada de helicóptero e embarcada no navio por cabos. Equipamentos foram lançados de para quedas na costa, e recolhidos, e novamente enviados por via aérea, bombas, compressores, mangotes, e ferramentas, chegavam por helicóptero. O plano era aumentar a flutuabilidade do navio injetando ar comprimido nos tanques de carga. Porem 14 dos 18 tanques foram perfurados, o óleo jorrava por debaixo do navio. Outro problema, a sala de bombas estava inundada, pois um grande rasgo corria o fundo do navio de proa à popa, e a praça de máquinas já fazia água também.


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E para piorar as condições climáticas só pioravam, e uma explosão ocorre num compartimento do navio, porem não havia ninguém neste lugar, mas mesmo assim 3 membros da equipe de salvamento são lançados na água gelada, prontamente 2 marinheiros do Reb. Titan, pulam na água oleosa e resgatam os três, porem mesmo com a chegada do socorro médico por helicóptero da RAF, o Capitão H. B. Stal (encarregado da equipe), não resiste aos ferimentos, e falece a bordo.

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Vídeo mostrando cenas da época do acidente, em destaque os esforços dos voluntários envolvidos com a limpeza das praias, e cenas de aves marinhas morrendo, estas foram as primeiras imagens na TV mundial mostrando os danos causados pelos piratas da indústria marítima.

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No dia seguinte ondas pesadas assolam o casco do navio, o  mar chega à força 8, mesmo com todos os 4 rebocadores tentando puxar o navio para fora das pedras, ele não se move. Na tarde do mesmo dia, o casco começa a sofrer um colapso, é dada ordem para evacuação do navio. A equipe é removida por helicópteros da RAF. Não muito tempo depois o navio parte se em 3 partes.

O novo encarregado da equipe nomeado as pressas com a morte do Capitão Stal, desembarca numa das partes e avalia que há possibilidade para salvar todas as 3 partes do navio.

Uma das raras fotos coloridas

Porem o Almirantado Britânico, e a Real Força Aérea, já haviam selado o destino do Torrey Canyon. Logo chega à ordem para toda equipe se afastar, e os rebocadores à largarem os cabos e equipamentos, e se dirigirem para um ponto determinado longe dos destroços que lançavam ainda mais de 30 mil toneladas de óleo. Em 28 de Março, bombardeiros Buccaneer, carregados com bombas de 1000 £ , lançam nada mais nada menos que 42 bombas destas sobre os destroços. Mas o óleo não queima, a guerrinha não surte efeito sobre o valente mercante que recusa a se render. Mesmo quando bombardeiros Hawker Hunter lançam toneis com gasolina, e disparam foguetes para incendiar o navio, o Torrey Canyon como um bom navio pirata, se recusa a afundar e seu óleo a queimar. Somente depois que usaram barreiras de contenção de espuma, e bombas Napalm é que o óleo começa a queimar, porem as ondas logo espalham o fogo para longe da mancha.


O Torrey Canyon em agonia


Apos o bombardeio inútil o navio ainda persiste em não morrer

Não houve solução o óleo chega as praias das Ilhas Guernsey (França), e nas costas de várias Ilhas na Inglaterra.

Hoje os destroços do S/T Torrey Canyon, descansam à 30 metros de profundidade, na posição: 50°2.50′N 6°7.73′W

Fotos: zeesleepvaart.com

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8 Respostas para “Torrey Canyon – O primeiro de muitos”

  1. oficial T.:

    Ei berdeide, gostariaa , se possivel ver uma materia sobre o off-shore na bacia pará -maranhao, como é as empresas quantas plataformas,etc.
    Abração.

    Responder

  2. Breno Bidart:

    Dobrar a capacidade do navio isso foi sinistro.
    Já embarquei em navios jumborizados nuca vi dobrar a capacidade.
    Essa história eu não conhecia.FOI IMPRUDÊNCIA DO CAPITÃO.
    Breno Bidart

    Responder

    • Rocha:

      Caro Breno,

      O pobre do Capitão não teve nada a ver com a ganância do armador, que é quem tem o poder financeiro e diretivo para determinar a jumborização do navio. Ao Capitão só compete comandar o navio com segurança em sua rota. A manutenção precária do armador e a demra em autorizar o Comandante à contratar os serviços de salvamento éque foram determinantes para a catástrofe.

      Saudações,

      Rocha

      Responder

  3. Paulino Soares Neto:

    Berdeide,
    Belo trabalho. Parabéns!!!
    Paulino Soares Neto – OSM

    Responder

  4. Paulino Soares Neto:

    Berdeide,
    Corrigindo parabenizar não só a voce mas ao Erick que assina o trabalho. Precisamos divulgar a historia da MM para que as novas gerações saibam que os acidentes do passado nos trouxeram o legado de legislações para tornar o ambiente de trabalho mais seguro e com menor risco ambiental e que devemos continuar nos preocupando com isso.

    sds
    Paulino SOARES NETO – OSM

    Responder

  5. Paulino Soares Neto:

    Berdeide,
    Corrigindo alem de voce o merito é do Erick tambem.

    Responder

  6. Flavio:

    Eu diria que o Decca e o Loran foram os “avós” do GPS…
    Existiu entre eles o sistema Transit, que usava satélites para posicionar os navios. A precisão das posições variava, podendo haver um erro de até 2 milhas. As posições não eram constante como o GPS. De “tempos em tempos” o aparelho registrava uma posição para plotarmos na carta.

    Quanto ao acidente, certamente ele estava fazendo a navegação com pontos de terra, marcações e distâncias, com radar ou não. Em todo caso, foi assumir um risco grande demais.
    sds,

    Responder


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