As esperanças de que o Registrador de Dados de Viagem (VDR) esclareceria questões fundamentais sobre o encalhe do Costa Concordia, no último dia 13 de janeiro, foram abaladas com a informação, dada pelo comandante do navio, Francesco Schettino de que o equipamento estava avariado desde duas semanas antes do acidente.
A se confirmar a falha do VDR, este será mais um caso a reforçar o histórico de problemas do equipamento.
Em artigo no seu Maritime Accident Casebook, o especialista em segurança e acidentes da navegação Bob Couttie observa que a seguradora norueguesa Gard emitiu umacircular sobre problemas em VDRs, datada de março de 2011, na qual chama a atenção para “vários casos em que embarcações não tiveram sucesso nem em arquivar nem em recuperar informação vital do VDR”. E os noruegueses acrescentam: “A incapacidade de apresentar informação do VDR pode levar a alegações de partes contrárias que poderiam ter sido evitadas ou contestadas de forma menos custosa, não fosse pela ausência de evidência do VDR”.
A advertência da Gard está, ao que parece, em consonância com o pensamento e a experiência dos investigadores do Marine Accident Investigation Branch, agência independente de investigação de acidentes marÃtimos do Reino Unido. Em seu relatório sobre o encalhe do navio Maersk Kendal, o MAIB afirma que o “comandante não estava familiarizado com o funcionamento de um VDR e jamais havia gravado dados nele antes. Ele, inicialmente, informou à companhia que os dados do VDR haviam sido salvos. Contudo, quando ficou claro, algum tempo depois, que a luz amarela projetada para ficar acesa de modo a indicar que a gravação fora feita não acendeu, ele deveria ter pedido orientação do armador. Ele poderia ou ter cortado a alimentação da unidade VDR ou simplesmente ter removido o disco rÃgido para impedir que ele fosse sobrescrito.”
A importância do VDR vai além da investigação de acidentes. Na União Europeia, a Diretiva 2009/18/EC7 sugere que os operadores de navios façam exames de rotina dos dados do VDR, de modo a adquirir maior experiência no manejo do equipamento e na identificação de circunstâncias que poderiam ter levado a incidentes ou acidentes de navegação. De posse dessa informação, pode-se avaliar de forma bastante confiável qual é o nÃvel de desempenho do serviço de quarto a bordo e agir para prevenir, corrigir ou mitigar deficiências eventualmente identificadas.
Se a Costa Cruzeiros tivesse feito isto, teria podido tomar decisões que poderiam ter salvado o Costa Concordia, em vez de se entregar ao esforço inglório de fazer todo mundo crer no mais improvável: que todas as salvaguardas de segurança existentes no navio foram vencidas por um só erro de um só homem.
Leituras relacionadas:
Black box or black hole? — BIMCO (em inglês)
VDR Failures May Be Catching the Wind — Maritime Accident Casebook (em inglês)





qua, jan 25, 2012, 262 views
Navegação VDR: caixa-preta ou buraco negro?